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terça-feira, 22 de junho de 2010

Royalties sem eira nem beira


Quando falamos em royalties, as opiniões são divergentes. E o polêmico assunto está na moda!
Há os que acham que o correto é dividi-lo em partes iguais com todos os Estados, sob a alegação que o mar é da União.

Há ainda os radicais que preferem a extinção da compensação, já que não vêem a aplicação efetiva do benefício em lugar nenhum e aqueles outros, que têm consciência do grande prejuízo que será para o estado e estão se mobilizando para mudar isso.

A realidade é que a grande maioria das pessoas desconhece as Leis, e o porque do Distrito Federal, estados e municípios produtores, terem direito ao recurso que de benefício, nada tem.
É uma compensação financeira.

Para melhor posicionar o leitor, que muitas vezes fica refém de palavras difíceis, a palavra royalty deriva do inglês royal e significa tudo aquilo que pertence ou é relativo ao rei.

Em tempos antigos, era um valor pago ao monarca. Uma compensação pela extração de recursos naturais da terra que governava como água, madeira, caça, pesca ou até mesmo o uso de bens de sua propriedade como moinhos e pontes.

Hoje, o termo é empregado para determinar a importância paga ao território que detém um produto, marca, processo de produção, obra original, patente de material, recurso natural e ainda pelos direitos de exploração, distribuição, comercialização ou uso de determinado produto ou tecnologia.

Aposto que estas linhas acima te esclareceram coisas que você nem imaginava. Portanto, a constatação é que o real significado da palavra vai bem além do que muitos de nós imaginávamos e algumas respostas já começam a dar o ar da graça.

É a maravilha da informação!

Aos que acham que dividir com todos é o correto, pois as plataformas e poços ficam em território da União, informo que trata-se de um direito estabelecido e assegurado por Lei aos Estados e municípios que são afetados, por sua exploração direta, ou pelo estabelecimento de instalações terrestres e marítimas de embarque ou desembarque.

Sendo assim, ao contrário do que se pode erroneamente pensar, não se divide parte dos lucros ou se paga aluguel do território marítimo com os royalties. A compensação acontece, devido ao investimento que é feito para garantir a infra-estrutura e a manutenção de estradas, por onde passa a produção.

Parte também é destinada a projetos como o Fundo Estadual de Conservação Ambiental e Desenvolvimento Urbano (Fecam), que dirige parte da fatia que recebe, para atender à necessidade financeira de programas e projetos ambientais em todo o Estado do Rio, entre outros que você pode ter acesso com apenas um clique na web.

Mas essa história de compensação financeira e investimentos não são só flores!
Quem se lembra dos relatos de vazamentos em 1955, em São Sebastião - SP, e os danos causados a natureza e ao município? Será que os congressistas maranhenses, sulistas e tantos outros lembram-se deste fato e conseqüências?

E aquele ocorrido em 1974, no mesmo lugar, quando o petroleiro Takima Maru chocou-se com uma rocha e derramou aproximadamente 6.000 toneladas de petróleo no litoral paulistano?
E no Rio, quando o navio Tarik Ibn Zyiad despejou o mesmo volume de óleo cru na Baia de Guanabara e três anos mais tarde, com o petroleiro brasileiro Brazilian Marina, semelhante ao de São Paulo, provocou um vazamento com igual volume no mesmo lugar?

Você pode dizer que esses acidentes são antigos.

Não muito.

Há dez anos, por um problema em uma das tubulações da Refinaria de Duque de Caxias, algo em torno de 1,3 milhão de litros de óleo cru foram lançados na Baia de Guanabara.

Isso certamente em nada afetou a União, senão o Estado do Rio que perdeu em turismo, pesca, geração de empregos e outras áreas. A mancha de óleo atingiu uma extensão de 50 quilômetros quadrados, quase o total da área do Maracanã.

Apresentados os fatos, resta a pergunta: quem paga essa conta? Independentemente da resposta, uma coisa já sabemos. O prejuízo é nosso, uma vez que o ecossistema, após degradado, jamais será o mesmo novamente.

E para aqueles, que acreditam que melhor seria se não houvesse royalties, por não desfrutar dos benefícios, fica além da dica de pesquisar sobre o assunto, a informação de que a Constituição Brasileira divide a obrigação do bom andamento da cidade e estado entre o Poder Público e a população.

Então, fiscalize e denuncie!

Finalmente, para aqueles que acham um absurdo essa ação inconstitucional, estão cobertos de razão.

É um abuso explícito, sem eira nem beira, que precisamos sim, protestar e brigar pelos nossos direitos. E uma vez sendo politicamente responsáveis, interessados e atuantes, dificilmente seremos ludibriados ou passados para trás, elevando nossa consciência política e mudando efetivamente a cara do país.


Claudia Cataldi é jornalista e presidente do Instituto Responsa Habilidade.

presidencia@responsahabilidade.org.br

Twitter: @ClaudiaCataldi

Consumo consciente


O ato de consumir se traduz na sua decisão solitária diante da prateleira que determina o funcionamento de toda a engrenagem das cadeias produtivas.

O consumo consciente é uma expressão que congrega uma gama enorme de comportamentos, porque está contido nesse agregado, a consciência ambiental que é a mais propalada.

Mas o que dizer por exemplo, do consumo como indutor do desenvolvimento local em que o bairrismo leva a uma mudança na micro economia quando se privilegia a produção originária do seu entorno?

Quando escolhemos o produto do estado “A” onde moramos, em detrimento do estado “B” a 2 mil quilômetros de distância, contribuímos para que haja menos pessoas desempregadas na nossa cidade, e provavelmente isso vai representar menos desocupados , menos risco de segurança pública, e maior massa salarial de consumo nesse mesmo universo.

O consumo consciente tanto pode ser usado no conceito ambiental quanto no econômico.


Claudia Cataldi é jornalista e presidente do Instituto Responsa Habilidade.

presidencia@responsahabilidade.org.br

Twitter: @ClaudiaCataldi

José Saramáicol Jackson


A coluna de hoje é na verdade um apelo a todos vocês leitores.

Por favor, quem achar que está bom, ruim, quem quiser se manifestar a respeito do meu trabalho, que por favor, o faça em vida... é... porque estou aqui diante da tv mais uma vez assistindo a um longo, belo e comovente documentario da vida do nosso Saramago, documentário esse que tenho certeza, ele desfrutaria horrores caso tivesse a oportunidade de assistir.

Tratam da vida dele num passo a passo meticuloso, com tanto carinho e ternura que francamente, desperdício privarem o próprio de tal prazer.

Agora de que adianta? Não que ele não tenha sido reconhecido por sua produção, não é isso!

Mas nunca o sujeito teve tanto tempo e tantas repetições sobre sua obra quanto no dia da sua morte, não parece um contra senso?

Aliás, o Saramago nem é o melhor exemplo quando se fala dessa loucura: imaginem que assisti um especialista dizer que agora, pós mortem, é a melhor fase da carreira do Michael Jackson! COMO ASSIM???

Melhor fase cara pálida? Será que é preciso morrer, escafeder-se para então poder desfrutar de tal prestígio? É a consagração da sua carreira?

Eu estou correndo e muito disso, fora mesmo, então leitores queridos, por favor, manifestem-se enquanto é tempo, escrevam-me, porque o que se leva desse vida, é a vida que se leva...

Claudia Cataldi é jornalista e presidente do Instituto Responsa Habilidade
presidencia@responsahabilidade.org.br
Twitter: @claudiacataldi

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Agricultura é vida


Impossível mencionar a agricultura e não falar de história, sociologia e antropologia, já que ela é anterior à escrita e seu incremento se confunde com o desenvolvimento do pensamento humano e com a organização dos primeiros núcleos sociais.

Há cerca de doze mil anos, o homem percebeu que as sementes dos frutos que os alimentava, em contato com o solo originavam plantas que posteriormente produziriam frutos idênticos àqueles dos quais extraíram as sementes. Tal experiência aumentou a quantidade de alimentos, fazendo surgir as primeiras lavouras e com elas, o povo que antes era nômade, fixou-se num só lugar mudando o designo do homem de caçador para agricultor.

Nossos antepassados sejam africanos, asiáticos ou europeus, tiveram suas sociedades organizadas inicialmente com base na agricultura. No Brasil, as comunidades indígenas que aqui viviam, antes da chegada dos portugueses, praticavam a pesca, a caça e a agricultura, que talvez tenha sido um dos principais atributos aos olhos estrangeiros, que antes de tomarem conhecimento do Pau-Brasil ou das riquezas minerais, citaram em carta ao velho mundo, “que nesta terra, em se plantando tudo dá.” Com essa informação, foi dado início a devastação das nossas matas litorâneas. Primeiro em busca da madeira rara, depois pela cultura de exportação, como a da cana-de-açúcar e mais tarde o café. E foi exatamente a escassez de alimentos, devido ao esgotamento do solo, que levou os europeus a intensificarem suas pesquisas científicas e tecnológicas no final do século XIX e início do século XX, na busca de fertilizantes químicos, melhoramento genético, motores a combustão e máquinas. Por aqui, expandiam-se fronteiras agrícolas em busca de novas terras agricultáveis, sem pouco se importar com a destruição florestal. Foram as descobertas feitas no século XX que deram origem à agricultura moderna. Cientistas como Saussure, Boussingaut e Liebig desacreditaram a dita “teoria do húmus” de que as plantas poderiam extrair tudo o que precisavam a partir da matéria orgânica do solo, defendendo que o volume da produção agrícola é proporcional à quantidade de componentes químicos aplicados no solo.

Oficialmente, já não éramos mais colônia nessa época, mas pelas leis que regem o capitalismo, embarcamos na onda do agrotóxico, ignorando as palavras de Caminha e tudo aquilo que não precisamos de nenhum estrangeiro pra dizer. Temos terras a perder de vista, climas diferentes em diferentes regiões. Pra que influenciar quimicamente a produção, se a natureza está em nosso favor? Se tantos quilômetros de mata já foram devastados, o que temos não é suficiente?
Essas e outras indagações, engrossaram o coro dos “ecologicamente conscientes”. E pasme, não são tão atuais como se imagina. Um grupo de estudantes brasileiros da Universidade de Coimbra no final do século XVIII e início do século XIX, condenava o tratamento dado ao meio ambiente no Brasil naquela época, e escritos de José Bonifácio, garantira a continuidade das idéias ao longo da monarquia. O próprio D. Pedro, tinha a sua volta, intelectuais e naturalistas que conduziam o Museu Nacional e o Instituto Geográfico Brasileiro. Políticos e fazendeiros da corte do Rio de Janeiro, na época capital, já mostravam-se preocupados com as questões ecológicas, acreditando que o mundo urbano que estava sendo implantado, era um modelo indesejável do padrão de vida europeu.

Na década de 70, surgiu o termo “agricultura alternativa” e sustentabilidade. Podemos dizer que aí sim começou-se a fazer algo. Foram criadas organizações como a Internacional Federation on Organic Agriculture (IFOAM) além de normas de certificação de orgânicos.

No Brasil, encontros realizados em 81, 84 e 87 concentravam as críticas na degradação ambiental e nos meios tecnológicos sobrepondo condições sociais às políticas e ecológicas. Surgiam também algumas ONGs setoriais e o termo agroecologia.

A partir da ECO 92, no Rio, o termo sustentabilidade ganhou força e com ele os processos de certificação ambiental como os “selos verdes”, incentivando a produção sem uso de meios e processos que degradem o ambiente.

A evolução é um processo lento e é importante acreditar que estamos no caminho certo. Uma trilha construída tijolo a tijolo que tem como matéria base o conhecimento e o raciocínio. Não podemos agora em pleno século XXI, depois de testar o certo e o errado, retroceder e culpar a agricultura de todos os problemas ambientais.

Esse não é o caminho.

Devemos sim valorizar essa arte e seus artistas, parando de enxergar o agricultor como o matuto ignorante que pouco conhece de modernidades. Uma herança errada deixada por Monteiro Lobato e seu “Jeca Tatu” que tantos “ Nersos da Capitinga” e “Jecas Gay” nos fazem acreditar até hoje. São eles que põem a comida em nossa mesa e somente através do trabalho suado, sol a sol dessa gente, é que temos acesso à matéria prima pra fazer remédios, roupas, papel, borracha e tantos outros itens de primeira necessidade que depois de prontos, ninguém quer saber de onde vieram.

Precisamos repensar a agricultura familiar que hoje representa mais de 84% dos imóveis rurais do país e é responsável por aproximadamente 40% do valor bruto da produção agropecuária e por uma parcela significativa dos alimentos que chegam à nossa mesa, como o feijão (70%); a mandioca (84%); a carne de suínos (58%); de leite (54%); de milho (49%); e de aves e ovos (40%).

A poder público e algumas ONGs, tem feito sua parte através de vários órgãos como as Empresas de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER) existentes em todo país dando suporte e investindo para que os agricultores familiares tenham mecanismos para fazer agricultura sustentável.

A feira “Brasil Rural Comtenporâneo” que nas suas duas últimas edições aconteceu na Marina da Glória no Rio de Janeiro mostrou a força da agricultura familiar no país. Um sucesso de público que poderia ter sido muito maior se nós, cidadãos, estivéssemos um pouco mais dispostos a saber o que podemos fazer como indivíduos, parte de uma sociedade.

E isso vai além de simplesmente criticar a agricultura e os agricultores sentados na poltrona assistindo novela. Temos que botar literalmente as mãos na massa, nos informando mais, conhecendo a fundo a história e a relação da agricultura e do homem e acima de tudo, consumir com consciência, preocupando-nos com segurança alimentar que nada tem a ver com a qualidade dos alimentos como se pode erroneamente pensar, mas sim no equilíbrio entre o que se produz e se consome.

Quem sabe assim, trocamos de vez o título de sociedade do consumo pelo de sociedade da consciência.


Claudia Cataldi é jornalista e presidente do Instituto Responsa Habilidade
www.responsahabilidade.org.br
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Twitter: @claudiacataldi

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Água dourada


Desde os primórdios, o homem cultua o que é belo e raro. Assim é com as esculturas, obras de arte, jóias, e aí entram as pedras preciosas e os metais, que quanto mais raros, mais valorizados.

Talvez seja essa a razão de encontrarmos tanta dificuldade numa consciência coletiva do valor e da importância de se preservar a água, porque ela é tão abundante, que frequentemente ouvimos dizer que nosso planeta bem podia se chamar água, em vez de Terra, pois ocupa 71% da superfície e nosso potencial hídrico subterrâneo é 100 vezes maior que o das águas superficiais.
Já dizia a velha canção sem hipérbole alguma, que moramos num país tropical abençoado por Deus. Aqui a natureza não economizou em nada. Em termos de potencial hídrico, nosso volume médio anual é de 8.130km³, o que resulta em mais de 508 mil litros de água por habitante ao ano, ou seja, uma piscinas olímpica cheinha para cada um de nós brasileiros.

De toda a água doce disponível no mundo, 11% está em nosso território. A Amazônia, maior floresta tropical do planeta, é a mais rica não só em espécimes da fauna e da flora, o que garante a maior biodiversidade, mas também o lugar mais opulento em água potável superficial. Além disso, somos donos de gigantescas reservas em quase todos os Estados, exceto no semi-árido do nordeste. Sem contar com os aquíferos subterrâneos resultantes da contínua atividade cíclica hídrica, onde uma parte da água proveniente de rios, mares lagos etc. evaporam e retornam à superfície em estado líquido sendo atraídas pela força da gravidade penetrando nas rochas porosas, constituindo um manancial de área maior que os territórios da Espanha, França e Inglaterra juntos. Sem nos esquecer da menção ao pantanal, considerado a maior planície de inundação.

O Aquífero Guarani, um dos maiores do mundo, tem dois terços localizados em território brasileiro sob os estados de Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e o restante dividido entre Argentina, Paraguai e Uruguai. Calcula-se que seu potencial seja capaz de abastecer quase o dobro da população brasileira, cerca de 360 milhões de pessoas com seus mais de 40.000 km³ de água, índice superior a água de todos os rios e lagos do planeta o que nos garantiria abastecimento sem reciclagem ou reaproveitamento por milhares de anos.

Tudo isso já seria mais do que suficiente para nossa subsistência, no entanto, uma recente descoberta aumentou ainda mais nosso potencial hídrico: o Aquífero Alter do Chão, um reservatório fronteiriço que o Brasil divide com Venezuela, Colômbia, Equador e Peru, tem uma extensão 3 vezes maior que a do Guarani, já considerado o maior volume de água potável do mundo. Localizado sob os estados do Amapá, Pará e Amazonas, tem volume d` água suficiente para abastecer cem vezes a população mundial com 86 mil km³ de água doce disponível.
Foi essa grande disponibilidade de água que nos fez viver até bem pouco tempo com a ilusão de que nunca sofreríamos pela sua falta.

Ilusão mesmo!

Vide as sucessivas secas, apagões e racionamentos que volta e meia temos que enfrentar.
Não podemos esquecer que embora tenhamos muita água disponível sua disposição é desigual. A região Amazônica, por exemplo, corresponde a 54,48% do território e concentra uma população de 1 habitante por km², enquanto a Região Norte com seus 79,7% de potencial hídrico e 7,8% da população. A situação é semelhante quando se compara a situação continental.
A América do Sul descansa 6% da sua população em 26% das águas mundiais enquanto os asiáticos, que são 60% do planeta, tem que rebolar com seus 36% de recursos hídricos.
Embora o planeta tenha 71% da sua superfície coberto por água, apenas 3% é doce e somente um terço é acessível, e todo o resto está nas geleiras, calotas polares e lençóis freáticos profundos.

A falta de saneamento, também é um agravante, são 3 milhões de mortes anuais, na maioria crianças, 1,8 milhão segundo relatório da ONU e mais de 1 bilhão de doenças provocadas pelo consumo sem tratamento.

Turquia, Iraque e Síria vem atravessando sérias desavenças por conta do domínio da água dos rios Tigre e Eufrates que cruzam os países, mas tem nascente em território turco. O exemplo confirma os dados de que cerca de 50% das terras emersas enfrentam escassez de água e que a cada 5 indivíduos, um está privado de consumi-la, e pasmem, metade da população da Terra, não tem rede de abastecimento.

Tanta abundância nos fez esquecer que a água é um bem finito, como nossas professoras ainda em nossa primeira infância, muito bem nos ensinaram, é um recurso natural não renovável. E quando foi que demos a esse ensinamento o devido valor?

Sustentamos ao longo da nossa existência uma cultura de desperdícios. São horas lavando o carro nos finais de semana, horas no banho, escovamos os dentes com a torneira aberta, todos hábitos passados de nossos avós para os nossos pais que por sua vez nos repassaram e que responsavelmente não devemos tocar adiante. O fato é que a atual carência de água é o resultado de uma combinação de efeitos naturais, demográficos, sócio-econômicos e também culturais. Temos poluído indiscriminadamente nossos mares, lagos e rios, despejando toneladas de resíduos sólidos diariamente, exterminando a biodiversidade marinha e espalhando doenças que matam a nós, e nossas crianças.

Deixemos de achar que a água é um recurso abundante e de poupar só pra não sentir no bolso quando vem a conta. Está na hora de abandonarmos a condição de utilizadores da natureza e a crença de que com tecnologia resolveremos todos os impactos negativos que causamos ao ambiente e ao meio natural. Segundo o geógrafo Nelson Bacic Olic, ao longo do século XX, a população mundial foi multiplicada por três, as superfícies irrigadas por seis e o consumo global de água por sete, e ao mesmo tempo, nas últimas cinco décadas, a poluição dos mananciais reduziu as reservas hídricas em um terço. Já no início do século XXI, a água já é considerada o bem mais valioso, e o Banco Mundial necessitará de investimentos em torno de Us$ 800 bilhões em todo o mundo para que ela não falte.

Declarações da ONU afirmam que se o consumo indiscriminado permanecer, até 2025, 2,7 bilhões de pessoas vão sofrer pela sua falta.

A água é indispensável a vida, e depois de todas estas constatações, o que se pergunta é: de que valerá tanta riqueza, tanta conquista, se não tivermos a disponibilidade de nosso bem maior, ao qual ouso até chamar do verdadeiro ouro branco?



Claudia Cataldi é jornalista e presidente do Instituto Responsa Habilidade
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terça-feira, 1 de junho de 2010

Passageiros


Estamos todos juntos pirando?
É tanta informação, tanta demanda, tanta coisa para fazer, para dar conta, que não há e não haverá jamais, tempo no mundo suficiente para enfim dizermos: acabei!!!
Terminamos um dia ainda tendo mil afazeres, sem ter lido tudo o que tínhamos que ler, sem visitar ou telefonar a todos que precisávamos, sem responder a todos os mails que nos mandaram...uma pressão tremenda...
E seguimos nessa batalha diária, na ilusão de que esse momento uma hora vai acontecer, nos enganando por não prestar atenção e observar o que está na nossa cara: a cenoura está comendo o coelho!
É isso aí, a tal da tecnologia, que nos foi originalmente apresentada como uma ferramenta de ajuda muitas vezes atrapalha.
Quem ainda não ficou plantado criando raiz num banco, porque o sistema caiu, ou ligou para um 0800 da vida e depois de vencer milhares de etapas digitando os 3 últimos algarismos do cpf, dizer o nome da bisavó e recitar Camões, teve que contar até sabe Deus quanto para começar tudo de novo porque todos os atendentes estavam ocupados? Sem esquecer da melhor: a famigerada impressora que justo quando estamos imprimindo o trabalho da nossa vida dá pau??? Hein?
Não sei aonde vamos chegar correndo tanto, nos arriscando a perder o que há de melhor da viagem: a viagem.
Claudia Cataldi é jornalista e presidente do Instituto Responsa Habilidade
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terça-feira, 27 de abril de 2010

O dono do lixo


Nosso Rio de Janeiro é, sem dúvida, uma cidade maravilhosa. Além de suas praias e cartões postais conhecidos mundialmente, tem, a exemplo do resto do Brasil, um povo hospitaleiro e acolhedor, exceto a um probleminha aqui e outro acolá comum a toda metrópole - preocupada em receber bem seus visitantes.

Na década de 80 éramos 5 090.700. Hoje somos, na cidade, 6.186.710 e em toda região metropolitana, somamos 11.812.482 habitantes, segundo dados do IBGE de 2009. Antes tínhamos dúvidas se chegaríamos ao século 21. Hoje a questão é outra. Afinal, de que maneira podemos conter os reflexos do crescimento demográfico no meio ambiente?

O planeta dá indícios de esgotamento e o vilão número um tem ligação direta com o comportamento humano. A quantidade de lixo produzido. E o que fazer? Eis a indagação constante dos mais preocupados.

Estima-se que cada pessoa produza diariamente 5 Kg de lixo. A partir deste dado é só fazer as contas e chegarmos a um resultado um tanto assustador. Juntos, somos responsáveis por mais de 59 mil toneladas diárias de lixo que sem o devido manejo vão para os aterros sanitários. Ou seja, tudo o que jogamos fora na cidade maravilhosa, seja doméstico, industrial, hospitalar, agrícola, radioativo ou tecnológico vai direto para Gramacho, que a despeito dos cálculos da quantidade de lixo per capta, estima-se receber 8.800 toneladas todos os dias. Isso por que essa tem sido uma alternativa 15 vezes mais viável do que reciclar.

Projetado na década de 70, o Aterro de Gramacho é o destino dos resíduos sólidos das cidades do Rio de Janeiro, Nilópolis, Duque de Caxias, Nova Iguaçu e São João de Meriti. Já naquela época, especialistas indicavam que o local, às margens da Baía de Guanabara e dos rios Sarapuí e Iguaçu, não era indicado, mas contrariando todas as previsões e a portaria do CONAMA - Conselho Nacional do Meio Ambiente, que proíbe o lançamento de resíduos em cursos d’água, em setembro de 78, o aterro começou efetivamente sua função.

Em dez anos de existência, recebia 100 mil toneladas de lixo e já em 87 foi detectada a contaminação do ambiente por metais pesados como cobre, chumbo, cádmio, zinco e cromo.

Mesmo assim, rompeu as barreiras do século 21 recebendo em seus 285 hectares, significantes 9 mil toneladas de lixo dispostos em montanhas de 36 metros de altura, o equivalente a um prédio de 12 andares.

Durante todo esse tempo, o aterro de Gramacho tirou o sono de muita gente e várias foram as tentativas de prolongar sua vida útil: melhoria no sistema de drenagem de águas pluviais, drenagem e coleta de chorume e cobertura dos resíduos sólidos com argila.

Nada foi o bastante. Somente em junho de 2009 a vontade saiu do papel, com a inauguração da usina de Biogás do Aterrro Metropolitano de Jardim Gramacho. O calculo de produção é animador: cerca de 160 milhões de metros cúbicos de biogás por ano, através do chorume que nada mais é que o resultado residual da lavagem do lixo pelas águas das chuvas.

O projeto, aprovado pela ONU, renderá 10 milhões em crédito de carbono em 15 anos de atividade, tempo de durabilidade previsto para a reserva de gás. Além disso, o programa assegura a manutenção do aterro por mais 15 anos após o fim das operações pela empresa concessionária que atende aos requisitos do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), previsto pelo protocolo de Kioto.

Todo esse esforço foi para garantir que o mesmo chorume, que agora se tornou fonte de energia, não atingisse a Baía de Guanabara causando um desastre ambiental sem precedentes. Diante toda esta longa explicação, você deve estar se perguntando: e por que mesmo assim, não vemos a baía mais limpa? Talvez por que a iniciativa não devesse partir somente dos governos, seja no âmbito federal, estadual, ou municipal, no que concerne aos 16 municípios em seu entorno. O que pouca gente sabe, ou se dá conta, é de que, se no início, a principal vilã dessa história foi a atividade industrial, hoje a culpa é muito mais nossa, que nos acostumamos em esperar que as “autoridades competentes” tomassem a iniciativa.

Pense nos 5 quilos de lixo que produzimos diariamente, na quantidade de detritos que vemos nas ruas e nos rios que cortam nossos municípios despejando 200 mil litros por segundo de água ora doce, com todo tipo de sujeira imagináveis. São pedaços de madeira, tubos de imagem de TV, geladeiras velhas, sofás, carcaças de carros e até cadáveres. Barcos de coletas e ecobarreiras, isolamentos feitos com garrafas PET, são insuficientes para conter o grande volume de lixo que flutua na Baía: cerca de 80 toneladas diárias em dias mais estáveis, chegando a 200 em dias de fortes chuvas e maré.

E como se não bastasse, tem ainda o que os olhos não vêem... Dos 380 Km² de sua área, 20 estão completamente assoreados, a ponto de não existir mais vida. O que ganhamos de herança foi somente uma superfície revestida com plástico e outros resíduos que um dia estiveram em nossa casa, em nossas mãos e irresponsavelmente lançamos a esmo no ambiente.

Diante dos fatos, resta a pergunta: quando é que vamos parar de cobrar do governo iniciativas que dependem de nós? Uma recente pesquisa realizada pela agência Reuters e pela empresa Ipsos, que ouviu 24 mil pessoas em 23 países, incluindo o Brasil, antes, durante e depois da Conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas em Copenhague, a respeito do índice de satisfação da população com seus governantes e líderes empresariais referente as medidas corretas para evitar a mudança climática global, a cada 100 entrevistados brasileiros, 43 declararam-se insatisfeitos.
Partindo desse ponto de vista, e dessa cobrança frenética aos poderes governamentais, questões afins permeiam minha mente: Como podemos ensinar nossos filhos a serem cidadãos mais conscientes sem dar o exemplo? Porque não começar fazer a nossa parte? Afinal, as pessoas não jogam lixo no chão de suas casas. Mas, distraidamente deixam cair inofensivos papéis de balas, pipocas e outros tantos nas ruas.

E chegamos à máxima: que geração estamos deixando para o mundo como legado? E que mundo estamos deixando para nossos filhos?

Podemos mudar agora esse quadro e diminuir a nossa responsabilidade nessa degradação ambiental. Assim deixaremos de ser os donos do lixo, para assumir o papel de donos do mundo. Um mundo consciente e de cidadãos ambientalmente responsáveis.